Meu cabelo tipo 4: Qual a Importância do Papel do Pedagogo enquanto formador de Identidade dos alunos Negros!! – Aline Silva Gata Crespa Cacheada!
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Qual a Importância do Papel do Pedagogo enquanto formador de Identidade dos alunos Negros!! – Aline Silva Gata Crespa Cacheada!




Oiiiiiiiiiiie
Hoje aqui no blog teremos, uma entrevista super bacana com uma pedagoga e ativista do movimento negro, a Aline Silva que também é blogueira/vlogueira do Gata Crespa Cacheadas. Vamos ouvir a opinião dela sobre a influência do professor na formação de identidade de seus alunos?  


  •    Breve apresentação sobre a entrevistada.


Olá. Primeiramente gostaria de agradecer ao convite do Meu Cabelo Tipo 4, para fazer essa entrevista e falar sobre um assunto que tem tudo a ver com o meu trabalho acadêmico e profissional dentro e fora da sala de aula. Como pedagoga e como consultora dos cachos e incentivadora de uma construção da identidade negra de mulheres e crianças.
Eu me chamo Aline Silva, sou formada em pedagogia, dou aula para uma turma de fundamental I, segundo ano, e trabalho nas redes sociais como blogueira e vlogueira na valorização do cabelo crespo natural.   

  •       Qual a relação que você possui com a sua própria identidade??


Possuo uma relação, acima de tudo, de amor, de muita busca ainda, porque estudo muito sobre a minha relação com a construção da afrocentricidade e o que isso significa para mim como mulher negra que precisa ser uma referência em qualquer espaço em que esteja. Amo tudo que está ligado com a identidade negra que busco fortalecer cada dia mais em minha vida, e esse amor é um elemento ancestral, espiritual que vai para além das letras dos livros.

  •       Você acha que o professor influência na formação da identidade dos alunos? Por quê?

A formação da identidade de uma criança, começa no ventre da sua própria mãe. A família, é a primeira referência, para a criança, para a construção desse reconhecer-se com valor e com segurança. A escola, é a segunda instituição a qual o indivíduo é inserido e onde, esse indivíduo, entrará em contato com outras identidades, outras culturas e passará a ter também conflitos, com esses contatos. A professora, sem dúvida, é um ser quase que perfeito para a criança e ela trabalha a construção da identidade do ser, a partir do seu nome, do reconhecimento dos seus familiares e do reconhecimento de si e suas características físicas. As crianças dão muita importância para, o que a pró faz, pensa e como a trata. O amor da pró, é muito importante para ela, então logo, se a professora não trabalhar a construção da verdadeira identidade de seus alunos, ela estará exercendo uma influência negativa do ponto de vista da auto estima dessa criança e influenciando toda a vida desse ser.  

  •       Como você trabalha a questão de identidade na sala de aula?

Primeiro, eu parto dos conflitos que acontecem em minha sala de aula, e da vivência que os meus alunos compartilham comigo, nunca inicio um tema ou um diálogo do nada, mediante meu pensamento. Como tenho 90% de alunos negros, então você já pode imaginar a vivência deles e os temas que eles trazem para sala de aula. Então eu coloco todos esses temas em pauta, em minhas aulas e não ignoro nada, nem minto e nem escondo nada para eles. Converso sobre racismo, preconceito, violência, pobreza, riqueza etc... Além dessas conversa, que faço em forma de debates, todos os dias temos o momento da leitura e os meus livros sempre são livros reflexivos e com temáticas que façam a criança negra se ver e se ver de forma positiva e valorizada. Sempre exalto a beleza dos cabelos e da cor da pele de minhas alunas e alunos e digo palavras de incentivo para eles escolherem caminhos que eles verdadeiramente querem seguir e não o que a sociedade diz que somente cabe para eles. Então minhas aulas sempre tratam de negritude, de desconstrução de um padrão de beleza imposto, da falsa opção de alisar os cabelos, da construção do gosto pela sua própria beleza e não pela beleza do colega ou da coleguinha branca... e principalmente de onde todo esse nosso valor veio. Então nós sempre estamos vendo o mapa da África, falando sobre países africanos e como eles vivem a vida ou viviam antes da chegada dos Árabes e depois dos europeus. Ensino para eles os termos africanos para os penteados e que aprendemos isso com as africanas, que herdamos tudo, absolutamente tudo dos africanos, que foram escravizados e que construíram e carregam, nas costas até hoje, esse país. Assim, eles vão sabendo de onde vieram, porque são como são, de onde vieram os termos que usam na linguagem, as danças, as comidas mas também a ciência, a medicina, as invenções dos negros. Muitas coisas temos para trabalhar com essas crianças e elas devem, antes de tudo, saber que o homem nasceu na África e passou a migrar para os outros continentes. A partir daí, tudo começa e muita produção temos para que a identidade de nossas crianças seja construída e fortalecida todos os dias. Porque toda a sociedade trabalha para que essa identidade não exista, principalmente a escola, sendo um aparelho ideológico do estado e reproduzindo racismo e preconceito, então é a escola que deve desconstruir tudo isso e trabalhar essa desconstrução com o auxílio da família.


  •      Você já presenciou algum ato de racismo, ou preconceito de crianças com crianças? Pode relatar o fato?


Eu não digo que foi racismo, porque meus alunos, não estão em condições de praticar racismo e, sinceramente, nenhuma criança está. Elas cometem preconceito sem nem saber, e reproduzem o que vêm dos adultos, aprendem com os adultos ou com a TV. Eu mesmo já fui rejeitada por uma aluna por não ser coe de pele, com ela mesmo relatou, mas ela só tinha 3 anos, o que dizer? Que ela é racista? Não eu simplesmente dei mais amor para ela e passei a ler mais histórias com personagens negros lindos e bem postos nessas histórias. Ao fim do ano ela não saia do meu colo.
Já vi e vive situações que dariam um livro, e penso que todas que me leem agora também viram e passaram. As salas de aulas são os lugares em que mais vemos isso.
Um aluno já disse para a colega, que o cabelo dela estava estranho, até do meu cabelo ele já falou isso. Mas eu trabalhei duro o conceito de estranho que ensinaram para ele e ele nunca mais repetiu isso e passou, inclusive a admirar nossos cabelos. Esse ano, eu trabalhei desde cedo isso com meus alunos e eles aceitaram bem, não tiveram muita resistência não sabe, por que tem turma que é difícil a gente desconstruir certos conceitos postos. 

  •       Seus alunos afrodescendentes se auto afirmam como negros?

rsrsrsrs Meus alunos pretos, todos, se denominam negros. Negros e pretos também, por que eu ensinei para eles que, em se falando de cor, essa é a cor deles e não há problema algum em se chamar de preto, com tanto que seja com segurança e orgulho.
  •       O que você acha que deveria ser mudado, no ensino base para que os futuros adultos se conscientizassem mais cedo?

É simples: Formação de educadores para cumprirem a lei 10639/03 de fato e de forma profunda e complexa. A escola servir seu verdadeiro papel de desconstrutora de racismo e preconceito, sem camuflagens, nem mentiras e omissões aplicando todo o ano e em todas as disciplinas o ensino da história da África e cultura afro-brasileira e o diálogo dessa escola e educadores com os pais para que eles fiquem cientes do que é obrigatório a escola cumprir. 
  •        Em relação ao cabelo crespo, o que seus alunos e alunas acham e falam?

Haaaa, rsrsrsrs, eles amaaaam, amam meeeesmo. As meninas até escrevem nos testes e provas, que aprenderam a não alisar o cabelo, a pentear seu cabelo e a gostar dele do jeito que é.  Eu me emociono, de pensar neles.

  •        Como é ser uma professora negra afro em uma escola de ensino particular?

Seria normal, se eu não tivesse consciência de meu papel, enquanto educadora negra e estivesse disposta a cumprir meu papel de forma responsável, seria normal se eu não fosse militante e se eu mantivesse minha boca calada e não falasse o que penso e nem defendessem aquilo que eu luto. Mas, como eu não vi ao mundo a passeio, e nem peguei um canudinho para me aparecer, rsrs... É difícil, é muuuito difícil e eu me pego, muitas vezes frustrada, chorando, revoltada etc... Porque estou, como a maioria dos negros, em um emprego subalterno e que não abaixar a cabeça pode custar meu emprego. Mas, o que me faz colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquila é que eu, toquei o coração das minhas crianças, eu fui referência de força e segurança para elas, eu ajudei a construir uma identidade verdadeira nelas, ou pelo menos ajudei e iniciar essa construção. 
  •       Faça suas Considerações finais!

Meu foco sempre foi as crianças. Vejo que toda a solução para nosso povo preto é educar as crianças pretas e brancas e isso custa sensibilizar, problematizar, conscientizar elas desde cedo, sem medo do que elas vão interpretar porque nós estaremos aqui para explicar e ajudar ela a entender verdadeiramente todo o conhecimento que estamos passando. Tudo começa nessa fase, então é nela que se começa a formar os racistas, homofóbicos, preconceituosos, agressores, julgadores da vida alheia e indivíduos com nenhuma auto estima e consciência de quem é. Portanto, eu faço um apelo: cuidem de nossas crianças, seja ela que for, sua filha, sua sobrinha, sua vizinha, sua afilhada...
Agradeço a Rose, que com seu blog traz a valorização de nossa identidade, faz história e se torna única na vida de mulheres negras por aqui. Agradeço o convite e a amizade que tenho com ela e o trabalho que realizamos juntas no vicio cacheado. Iremos preparar nossas filhas para continuarem nosso trabalho, pois para elas será menos árduo.
Sucesso #MCT4
UBUNTU!!
Deixo uma frase de Aristóteles (se não me engano)

“Eduque as crianças e não será preciso punir os adultos”  





Espero que tenha Gostado!!
Beijos e Fiquem com Deus ;)

4 comentários:



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